TERCEIRA IDADE



O SENTIDO DA FACULDADE "ABERTA"



Autores
Célia Sueli Gennari Bitencourtt (CREF 005000-G/SP)[1]
Mônica Ferreira de Araújo (CREF - número de protocolo 373904)[2]
Maria Amélia Dalmatti Lima [3]
Ano 2004

Resumo
A pesquisa mostra que as Faculdades “Abertas” à Terceira Idade encontradas no mercado educacional têm objetivos voltados às práticas de lazer, trabalhando principalmente a ludicidade do que propriamente a questão do ensino-aprendizagem, que é o objetivo maior de qualquer Instituição de Ensino Superior (IES). A pesquisa – qualitativa – foi constituída de informações veiculadas em páginas eletrônicas de IES, escolhidas aleatoriamente, e em matérias publicadas em veículos de interesse do idoso.

Palavras-chave
Faculdade Aberta; Instituição de Ensino Superior; Lazer; Educação; Aprendizagem; Tempo Livre.

Introdução
As Faculdades “Abertas” à Terceira Idade, principalmente as que atendem às camadas de menor poder aquisitivo, estão conseguindo desenvolver uma política de atendimento que atue na perspectiva da inclusão social e da Educação para a cidadania, enfocadas nas perspectivas da Educação Física, da Cultura, da Educação e da Aprendizagem, como direito e benefício que satisfaça suas necessidades, com base na concepção de Educação para todos[4]?

Do ponto de vista dos processos cognitivos e sociais – no exercício da cidadania –, consideramos que o ritmo acelerado, motivado pelas novas tecnologias, exige das pessoas atualização permanente, o que as impede do isolamento social e auxilia no processo de crescimento pessoal, através da aquisição de novos conhecimentos. Se temos como meta a inclusão do idoso na sociedade, com sua participação e com a intensificação das relações intergeracionais, é preciso privilegiar os contatos interpessoais na sociedade através das instituições de ensino.

Notamos que os mais velhos estão mais interessados em vivenciar experiências com liberdade e gratificação afetivo-emocional, principalmente quando estão em grupo. Sabendo disso, é preciso fixar a atenção em conteúdos pragmáticos que envolvam os espaços comunitários, como centros de reflexão sobre o envelhecimento, e conseqüente mudança de atitudes.

Nesse sentido, a educação para a Terceira Idade deve também se organizar de acordo com os 4 pilares do conhecimento[5]: aprender a conhecer, para ampliar seu repertório de saberes e suas habilidades cognitivas; aprender a fazer, para agir sobre o meio, aproveitar e renovar seus saberes profissionais e suas habilidades sociais; aprender a conviver, afim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; aprender a ser, que significa resgatar sua identidade cultural, ampliar seu universo de pensamentos e explorar suas potencialidades e talentos.

É necessário reconceituar a atual noção segmentada “como estrutura organizativa de experiências educacionais, com conteúdos e formas de instrumentação voltados para fins específicos e determinados por uma posição filosófica que extrapola a mera instituição escolar”[6]. Acreditamos ser relevante que os mesmos estejam fundamentados em pressupostos gerontológicos, sociopolíticos e teórico-metodológicos organizados de forma interativa e flexíveis às necessidades dos alunos.


[1] Graduada em Jornalismo pela FIAM, em Educação Física pela FIG e pós-graduada em Fisiologia do Exercício pela UniFMU.
[2] Graduada em Educação Física pela FIG, em Tecnologia Hoteleira pela FHBRenascença, guia de turismo pela Embratur e pós-graduada na Docência Superior para Turismo e Hotelaria no SENAC.
[3] Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Tatuí e em Psicopedagogia pela UNISO de Sorocaba.
[4] Declaração Mundial de Educação para Todos (1990).
[5] Delors, Jacques. Educação – um tesouro a descobrir. Relatório da Comissão Internacional sobre a educação para o Século XXI (Paris,Unesco), Rio Tinto, Portugal, Ed. Asa, 1998.
[6] Martins de Sá (1995), 19 in Caderno de Serviço Social (1998)

Desenvolvimento da Pesquisa
Em busca feita na Internet, conseguimos localizar várias Instituições de Ensino Superior (IES) que oferecem programas para a terceira idade. Algumas delas não são propriamente ligadas à área de “Educação”, mas à Medicina (Gerontologia e Geriatria). Nessa pesquisa, chamou-nos a atenção, entre outras coisas, o nome escolhido pelas IES para seus programas voltados aos idosos. Entre eles encontramos as seguintes diferenças:
Aberta à Terceira Idade, da Universidade de Franca – UNESP
Ambulatório de Geriatria, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
Ambulatório Didático de Geriatria, da Universidade de Marília – UNIMAR
Atendimento Multidisciplinar ao Idoso, da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo – Universidade de São Paulo
Censo de Gerontologia Social, do Instituto Sedes Sapientae
Escola Aberta à Terceira Idade, da Universidade de Taubaté – UNITAU
Faculdade Aberta à Terceira Idade, da Universidade Anhembi Morumbi – ANHEMBI
Faculdade da Modernidade, da Universidade Metropolitana de Santos – UNIMES
Geriatria e Gerontologia, do Centro Universitário São Camilo
Programa de Geriatria e Gerontologia, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP
Programa Terceira Idade, da Universidade de Mogi das Cruzes – UMC; da Universidade Federal de São Carlos – UFSCAR;
Projeto Sênior, da Universidade Estadual Paulista – UNESP
Projeto Universidade Aberta à Terceira Idade, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP
Setor de Geriatria, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
Universidade Aberta à Integração e à Terceira Idade – UNAI, da Universidade Braz Cubas – UBC
Universidade Aberta à Maturidade, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP
Universidade Aberta à Terceira Idade, da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP; da Universidade Católica de Santos – UniSantos; da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina; da Universidade São Judas Tadeu; da Universidade do Sagrado Coração
Universidade Aberta para a Terceira Idade, da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP
Universidade Aberta para Maturidade, da Univ. São Marcos – UNIMARCO
Universidade Aberta do Tempo Útil – UATU, da Universidade Presbiteriana Mackenzie – UM
Universidade da Terceira Idade, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP; da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (2 campus); da Universidade de Sorocaba – UNISO
Universidade Livre da Terceira Idade, da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP
Universidade para a Terceira Idade, da Universidade São Francisco – USF
Universidade Sênior Sant’Anna, da Univ. de Sant’Anna – UniSant’Anna
A diversidade foi pequena, mas nos despertou o interesse para a origem das palavras Universidade, Faculdade e Aberta, que compõem a maioria dos nomes adotados pelos programas vistos, para uma breve avaliação.

Assim[1], Universidade [Do lat. universitate] significa universalidade; instituição de ensino superior que compreende um conjunto de faculdades ou escolas para a especialização profissional e científica, e tem por função precípua garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa.

Faculdade [Do lat. facultate.] significa capacidade, natural ou adquirida, de fazer alguma coisa: aptidão inata; disposição, tendência, talento, dom: o conjunto das disciplinas professadas em cada área do ensino de nível superior; escola superior (estabelecimento isolado ou unidade de um conjunto universitário).

Aberta [F. subst. de aberto.] fenda, fresta, abertura: espaço de folga ou de interrupção em um serviço continuado; intervalo. Fig. Saída, solução. Fig. Ocasião favorável, oportunidade, ensejo.

Aproveitamos para pesquisar a origem de palavras que nos interessam como: Aprender [De apreender, com síncope.], tomar conhecimento de: reter na memória, mediante o estudo, a observação ou a experiência: tornar-se apto ou capaz de alguma coisa, em conseqüência de estudo, observação, experiência, advertência etc.

Lazer (ê). [Do lat. licere, 'ser lícito', pelo arc. lezer.] significa ócio, descanso, folga, vagar: tempo de que se pode livremente dispor, uma vez cumpridos os afazeres habituais; atividade praticada nesse tempo; divertimento, entretenimento, distração, recreio.

Com essa breve pesquisa percebemos que, embora as IES ofereçam em seus programas o aprender, na prática os idosos recebem o lazer.

Vejamos a escolha dos horários de aula. A maioria oferece as atividades no período da tarde, quando seus “alunos” já teriam então concluído, por exemplo, seus afazeres domésticos. Situação que se encaixa mais na descrição de lazer.

Algumas oferecem as “aulas” uma vez por semana, período um tanto quanto curto para assimilação de novos conhecimentos, para o aprender propriamente dito. E, ainda, outra questão, continua-se passando mais tempo dentro de casa do que nas IES. Neste ponto não se conseguiu também a inclusão social desejada e o aprender ficou à deriva.

Dentro das “atividades” oferecidas temos encontrado as seguintes opções básicas: línguas, artesanato, informática, educação física, teatro e tempo para palestras de profissionais de áreas a fins e de “interesse dos idosos”. Com essas atividades o que as IES estão pretendendo de fato? Onde está focado o aprender, além do lazer? E qual é a meta desse aprender?

Temos também as optativas como Coral, Dança de Salão etc. Mas, estamos falando de qual idoso? Esse idoso que entra na Faculdade “Aberta” tem condições de optar? O ideal, na verdade, é que o programa seja construído com a sua participação, ou seja, da parte mais interessada. Por outro lado, essas aulas opcionais são satisfeitas fora das IES, em associações, clubes, salões de bailes e por muitas instituições religiosas. Portanto, deveria ser avaliado pelas IES a sua real utilidade enquanto lazer.

Outra questão importante é: as IES estão oferecendo, caridosamente, algo ou estão usando os idosos como fonte de pesquisa? Se a resposta for a segunda opção, essa situação deve ser explícita, colocando o objeto da pesquisa a par de sua condição.

Corpo Docente Especializado
Encontramos algumas IES que deixam claro que os professores são ex-alunos dos seus cursos de graduação e de especialização. Mas graduados ou não, quem são esses docentes que ministram “aulas” para os idosos? Não encontramos muitos cursos dirigidos ao aprimoramento dos profissionais interessados nessa faixa etária, enquanto área de Educação. Em áreas específicas, no entanto, encontramos trabalhos interessantes em Educação Física, Medicina (Gerontologia e Geriatria), Antropologia e Nutrição. Nesse sentido, é justo ressaltar o trabalho oferecido pela PUC São Paulo, de Campinas, e pela Universidade Aberta da Terceira Idade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UnATI/UERJ)[2], que se preocupam não somente com a educação dos idosos, bem como com a formação e preparação dos profissionais que irão trabalhar com essa faixa etária.

O fato é que a população brasileira envelheceu rapidamente nas últimas décadas. Hoje, a perspectiva de vida é de 67,8 anos e deverá atingir 74 anos em 2020 (perspectiva de vida atual dos países desenvolvidos). E, analisando a população brasileira em uma estrutura piramidal, podemos perceber a expansão do topo e uma regular tendência de encolhimento da base. Estamos nos tornando um País jovem de cabelos brancos. E todas as estimativas demográficas do IBGE apontam para um contingente de aproximadamente 32 milhões de gerontes no Brasil, por volta do ano 2025.

Dessa forma, a população de idosos está ocupando um espaço muito importante dentro da sociedade, tanto no aspecto social quanto no econômico. Isso é claro, desperta o interesse de empresários e de pessoas preocupadas com a problemática que isso pode causar na saúde pública do País. Mas os profissionais dessas duas áreas pensam e agem diferente em relação ao provimento de condições ideais de vivência da vida.

Voltamos à denominação “Faculdade Aberta” e à questão do interesse do empresariado, para analisar as condições dos recursos oferecidos para as “aulas”. A Faculdade está aberta, como o próprio nome já diz, mas quando abriu a sua porta preocupou-se com as condições necessárias para o melhor aproveitamento desse grupo “especial”? Não basta abrir as portas, o empresário e/ou seus coordenadores de curso para terceira idade precisam analisar quais são as condições dessa população, verificar se o estabelecimento comporta e possibilita a facilidade de movimentação, se as salas e os equipamentos fornecidos estão adequados às condições de saúde de seus pretensos alunos, oferecer preços especiais para a aquisição de papelaria, xerox, livros etc. Para isso é preciso conhecer, mais uma vez, o grupo para o qual irá se abrir a porta, porque, caso contrário, muitos serão discriminados até mesmo por questões físicas.

E, por falar em discriminação, temos a questão da cobrança. Se a maioria das IES oferece um discurso de que tem por meta a inclusão social, por que cobrar mensalidade de quem já contribuiu tanto para o desenvolvimento da cidade, Estado e por que não dizer, do País? No momento da cobrança já está sendo feita a seleção dos eleitos para o curso. “Só é, quem tem”.

Todo cuidado é pouco na hora de lidar com o idoso, pois coisas e possibilidades que deveriam ajudá-lo, incluí-lo, motivá-lo, podem ter resultados contrários, ou seja, desmotivá-lo, deprimi-lo, decepcioná-lo e fazê-lo se sentir mais excluído do que já se sentia antes da entrada na Faculdade “Aberta”.

Resultados Preliminares
Se a Faculdade “Aberta” não fosse lazer, haveria o incentivo dentro desse programa para que os idosos – quando não tivessem o ensino fundamental concluído – estudassem em um curso supletivo e tivessem de fato a oportunidade de estudar dentro da Faculdade que hoje está “Fechada” para eles.

E, mesmo enquanto lazer, colocaria uma Assistente Social para realizar um trabalho de campo nas proximidades da Faculdade, a fim de estudar as reais necessidades de seus idosos e tirar de dentro de casa para o Lazer aqueles que realmente precisam e desconhecem a vida fora dos parâmetros de seu lar e de sua família. Essa mesma profissional poderia, por que não, até mesmo tentar resgatar a dignidade daqueles que se encontram em “Asilos”, tentando de alguma forma levá-los para as Faculdades “Abertas”. E, da mesma forma, fazer um trabalho de convencimento específico para levar o homem idoso à faculdade, diminuindo a mortalidade precoce masculina na terceira idade.

É preciso achar soluções para situações novas criadas pela superpopulação de idosos dos nossos dias e pelas Faculdades “Abertas”. No entanto, a maioria das considerações, comentários e questionamentos aos problemas observados, já foi colocada no Desenvolvimento desta Pesquisa.

Apenas fazemos questão de reafirmar que o aprender tem de ter como fruto a disseminação do conteúdo aprendido. Nesse sentido, não basta utilizar o tempo útil do idoso, é preciso fazer com que o preenchimento do tempo útil se transforme em ação. Dentro do programa que existe hoje, as Faculdades “Abertas” deveriam, portanto, ter a inclusão de voluntários da terceira idade na sociedade. Nesse caso até mesmo as atividades de lazer teriam um novo sentido, pois tudo aprendido seria transmitido a outrem.

Para pensar
“O envelhecimento é a regressão de funções e a diminuição da vulnerabilidade e não da aproximação da morte. Mas, de que morte estamos falando? Da morte, perda da vida, ou da morte, perda de possibilidades ao longo da vida?”[3]

“É preciso adicionar mais vida aos anos do que anos à vida”.
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[1] Novo Aurélio Século XXI – Dicionário Eletrônico, Editora Nova Fronteira, s/dt
[2] Página Eletrônica: www.unati.uerj.br
[3] Extraído da Apresentação do Projeto da Faculdade Aberta a Terceira Idade (FAATI), da FEFISO/ACM de autoria de Érica Verderi, coordenadora da FAATI.





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