TERCEIRA IDADE


Atividade física e envelhecimento saudável



Célia Gennari
Jornalista e Profissional de Educação Física, Pesquisadora Mentora do Portal do Envelhecimento.

E-mail: celia-gennari@uol.com.br
Fonte: www.portaldoenvelhecimento.net

Envelhecimento saudável virou uma boa chamada para as matérias da mídia.
Nunca se ouviu falar tanto na associação entre envelhecimento, saúde e qualidade de vida. Também não é para menos, do ponto de vista demográfico o mundo está envelhecendo com o declínio da natalidade e o aumento da expectativa de vida. Até 2025, na Europa, há uma previsão de que o número de idosos com 65 anos atinja quase 25% da população (1). No Brasil, já temos cerca de 9% de nossa população com 60 anos ou mais e devemos, nos próximos 20 anos, chegar a aproximadamente 32 milhões, segundo as estimativas demográficas do IBGE. (2) Algo parece que mudou na consciência geral da população e muitos buscam chegar a longevidade com muita saúde ou, se preferir, com pouco sofrimento. Parece que esse, na verdade, é o grande motivo de todas as ações: evitar o sofrimento do corpo e, conseqüentemente, da alma.
O corpo, se visto como uma máquina, precisa de movimento. E, de fato, o corpo é uma máquina. O ócio pode até ser produtivo, mas não para o corpo, especialmente em fase de envelhecimento, pois quanto menos o ser humano se movimentar, menos se movimentará. Já
dizia Platão que a falta de atividade destrói a boa condição de qualquer ser humano, enquanto o movimento e o exercício físico metódico o salva e o preserva.(3) Os músculos precisam ser ativados constantemente, a fim de evitar a atrofia muscular, o que é comum e de fácil observação em pessoas que ficaram por algum tempo imobilizadas ou impossibilitadas de movimentar-se. Esse para mim é o melhor exemplo da necessidade do movimento.
Existem várias formas de se exercitar. Você pode fazer isso espontaneamente e independentemente, ou através da orientação de um profissional habilitado e com capacidade para tal. Se o seu caso for de reabilitação, procure um Fisioterapeuta. Se o caso for de adaptação e adequação da atividade física ao seu momento de vida, procure um Profissional de Educação Física. Para detectar em qual desses dois casos você se encaixa, procure antes de iniciar a atividade, um médico.
Segundo Marie-José Manidi e Jean-Pierre Michel (2001), o movimento e o esporte contribuem para o bem-estar psicofísico e as faculdades físicas, intelectuais e sociais podem ser mantidas até uma idade avançada, se forem treinadas e exercidas com regularidade e critério.
A atividade física praticada regularmente tem seus benefícios comprovados. Ela pode prevenir a manifestação de certas doenças, tais como as cardiopatias isquêmicas ou hipertensão arterial e contribuir para limitar o aumento da obesidade, do diabetes não insulino-dependente e da osteoporose (Manidi e Michel, 2001). Mas, também existem alguns efeitos negativos que devem ser considerados. Eles podem ser, pequenos ferimentos, dores nas articulações e até mesmo problemas cardíacos graves.
Também é bom lembrar que a prática ocasional de exercícios é insuficiente para exercer uma ação preventiva sobre o sistema cardiovascular e as alterações induzidas pelo exercício nas funções orgânicas são perdidas com a mesma rapidez com que são ganhas. Parece ingrato, mas pensando por outro lago é motivador.
Assim, a prática deve ser constante e permanente, sendo mais fácil de ser exercida com atividades “moderadas” do que com “intensas”. Entenda-se como moderada: caminhadas normal, passeio em bicicleta, lavagem de janelas, dança lenta etc. e, como intensa: caminhada rápida, passeio de bicicleta de longa distância, trabalhos domésticos pesados, esportes com raquete etc.
Na maioria dos casos os efeitos negativos são causados por: uma condição física insuficiente
no início da prática da atividade física; má adaptação do tipo de atividade; má dosagem do esforço físico; utilização de material de má qualidade (calçados, por exemplo). Mas, porque
pensar nos aspectos negativos se os positivos é que nos beneficiam?
A regularidade na prática da atividade física é importante para um envelhecimento saudável e deve ser estimulada em todas as fases da vida. Então, conscientes dos benefícios, por que não se pratica a atividade física? Para responder a essa pergunta temos de voltar no tempo.
Na década de 60 a tecnologia ainda não estava em alta, o progresso fazia parte do futuro e as pessoas caminhavam longas distâncias para chegarem aos seus destinos e, ainda, respirando um ar menos poluído do que nos tempos modernos, já que não havia tanto transporte motorizado. Mesmo quando surgiu a televisão, não havia controle remoto, ou seja, todas as vezes em que se pensava em trocar de canal era preciso levantar e movimentar-se até o aparelho.
Se o progresso trouxe seus benefícios, também trouxe seus males e o ser humano não conseguiu se readequar a eles e aí é que está o problema. Hoje, as pessoas estão rodeadas  de tecnologia, se estressam demais e se esquecem de cuidar da própria saúde. Muitas vezes
não percebem que apenas 10 minutos por dia, poderiam sim fazer muita diferença. O aproveitamento do tempo não está adequado às necessidades corpóreas e o tempo passa rápido e, pode ser difícil recuperar o que se perdeu com o sedentarismo quando já se está em estado patológico grave.
Como comenta Érica Verderi em seu livro O Corpo não tem idade, o envelhecimento é um fenômeno fisiológico, progressivo e inerente a todo ser humano. No entanto, ele não precisa ser necessariamente patológico. “Iniciando aos 30 anos de idade, o envelhecimento prossegue num ritmo de 1% ao ano, podendo sofrer uma aceleração quando não estiver associado a bons hábitos diários e a um programa de atividade física. Aqueles que mantêm uma vida ativa de forma física, cognitiva e social serão sempre privilegiados”(2). Até aproximadamente 45 anos de idade a força muscular é bem preservada, mas as pessoas idosas respondem bem ao treinamento com pesos, e o resultado é a melhora da capacidade de exercer suas atividades rotineiras comuns. A independência física deve ser preservada e a atividade física pode proporcionar esse bem-estar no presente e no futuro.
Se você começar a se movimentar e continuar se movimentando, os sinais de advertência do
envelhecimento podem desaparecer: o excesso de peso some, a massa muscular e óssea aumenta, o coração fica mais forte e a intensidade dos sinais de perigo – colesterol alto e hipertensão arterial, entre outros – diminui.(3) Isso se aplica a todas as faixas etárias.
Eu proponho um desafio. Escolha a prática de atividade física que lhe dá prazer, pois com prazer fica mais fácil de praticar e comece amanhã mesmo alguma atividade física “moderada”.
De pouco em pouco, você cria o hábito e não vai consegue mais largar. Na seqüência marque logo uma consulta com um médico para ver se você está bem para iniciar o seu programa regular de atividade física.
 

Notas

(1) Manidi, Marie-José e Michel, Jean-Pierre. Atividade física para adultos com mais de 55
anos – quadros clínicos e programas de exercícios. São Paulo, SP: 1ª Ed Brasileira, Editora
Manole, 2001.
(2) Verderi, Érica. O corpo não tem idade: educação física gerontológica. Jundiaí, SP: Editora Fontoura, 2004.
(3) Fenton, Mark. Entre em forma caminhando: programa progressivo de 90 dias. Trad. Outras Palavras – Rio de Janeiro, RJ: Campus, 1996.




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