Especialistas do Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras (INCL) e da Fiocruz desenvolvem um estudo inédito cujo objetivo é traçar perfis genéticos dos hipertensos brasileiros. Com base nessas informações, acreditam os cientistas, será possível personalizar o tratamento da doença, tornando-o mais eficaz.
A hipertensão arterial, considerada um grande fator de risco para problemas cardíacos, afeta 13% da população do país. Na grande maioria dos casos (90%), não se consegue diagnosticar a causa primária do problema. Constata-se apenas que há um histórico familiar da doença, indicando uma origem genética.
— Sabemos que existem pelo menos seis alterações genéticas, ou polimorfismos, normalmente relacionadas à hipertensão. Sabemos também que quando quatro dessas seis alterações surgem, o organismo passa a excretar mais sódio, o que provoca uma retenção maior de líquido e um aumento da pressão — afirmou o coordenador do estudo, Ivan Cordovil, chefe do Ambulatório de Hipertensão do INCL. — Queremos agora, com o estudo, saber em que seqüências essas alterações aparecem, qual delas influencia mais no problema e como cada uma responde a determinadas drogas, além de possíveis efeitos colaterais dos medicamentos.
O estudo está sendo feito com 145 pacientes hipertensos resistentes à medicação padrão e com mais de 35 anos. Perfis genéticos das mais diversas enfermidades, entre elas a própria hipertensão, vêm sendo feitos em diversos países do mundo. Cordovil acredita, entretanto, que um perfil traçado nos EUA, por exemplo, não necessariamente se aplicaria ao Brasil.
— Eu quero estudar o homem brasileiro especificamente porque acredito que haja diferenças — justificou o cientista. — Uma das drogas usadas contra hipertensão não funciona em negros dos EUA, por exemplo, e funciona muito bem nos negros brasileiros. Acredito que a explicação para isso esteja na genética, no fato de terem origens diversas.
O estudo, com duração prevista de três anos, está sendo feito por uma equipe multidisciplinar e avaliará também outros aspectos da doença.
— A periodontite, inflamação de gengiva decorrente da má limpeza, ocorre em 30% da população em média. Entre os hipertensos, entretanto, constatamos que esse percentual é de 68%. Ou seja, há uma correlação entre a periodontite e a hipertensão — exemplificou o médico, lembrando que bactérias da inflamação podem levar ao aumento da pressão.
Uma vez concluído o perfil, o especialista acredita que será possível elaborar tratamentos individualizados, de acordo os polimorfismos apresentados, sua seqüência e sua resposta a determinados medicamentos.
Fonte: O Globo, 25/02/05
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