RESUMO: O objetivo do presente estudo foi comparar os valores de FC e PSE identificadas no limiar de
lactato em dois diferentes ergômetros (esteira rolante e cicloergômetro) em triatletas. Participaram deste
estudo 6 atletas do sexo masculino (26,0 ± 7.6 anos, 70,8 ± 5,0kg de massa corporal, 176 ± 5,0 cm de
estatura e 8,3 ± 1,4 % de gordura corporal), com experiência no Triathlon. Todos os voluntários
realizaram um teste incremental em cicloergômetro, intensidade inicial de 80w, cadência de 80rpm e
incrementos de 40W a cada 3minutos; e outro em esteira, velocidade inicial de 8km.h-1, 3% de inclinação
e incrementos de 1,2km.h-1 a cada 3 minutos para a determinação do LL. Amostras de sangue foram
coletadas antes do início do exercício (repouso) e ao final de cada estágio para determinação da
lactatemia. O LL foi considerado como segundo aumento maior ou igual a 0,5 mM em relação a
lactatemia do estágio anterior. A FC foi monitorada continuamente e registrada a cada minuto e a
percepção subjetiva de esforço (PSE) foi avaliada ao final de cada estágio. A FCmáx em esteira (193,7 ±
9,9bpm) foi maior que aquela encontrada em cicloergômetro (175,2 ± 13,3bpm). Não houve diferença
entre a PSE (15 ± 2,8 e 13,5 ± 2,0) e o %FCmáx (94,9 ± 1,4 e 93,2 ± 4,2%) no LL identificadas em esteira e
no cicloergômetro, respectivamente. Houve tendência a uma menor FC no LL em cicloergômetro
(p=0,085) quando comparado à esteira. A partir dos resultados encontrados, a PSE e o %FCmáx
mostraram-se ferramentas que podem ser aplicadas no controle e prescrição do treinamento de
indivíduos que praticam mais de uma modalidade esportiva.
Palavras-chaves: Limiar lactato; Triathlon; freqüência cardíaca
HEART RATE AND PERCEIVED EXERTION ANALYSIS IN THE LACTATE THRESHOLD OF
TRIATHLETES IN DIFFERENT ERGOMETERS.
Abstract: The aim of this study was to compare HR and RPE values identified at lactate threshold of
triathlets in two different ergometers (treadmill and cyclo-ergometer). Six male triathletes volunteered to
participate in the study (26.0 ± 7.6 years, 70.8 ± 5.0kg, 176 ± 5.0 cm high and 8.3 ± 1.4 % body fat). All
subjects performed one graded exercise on cyclo-ergometer (beginning with 80w, and increments of 40W
every three minutes), and another graded exercise on a treadmill (starting speed 8km.h-1, 3% of inclination
and increments of 1,2km.h-1 every three minutes). Blood samples were collected for lactate analysis prior
to the beginning of the exercise and at the end of each stage. Lactate threshold was defined as the
workload corresponding to the second lactate increase of at least 0.5mmol.L-1 from the previous value,
where the second increase was greater (or equal) than the first one. HR was continuously monitored and
was registered every minute and the RPE was evaluated at the end of each stage. HRmáx on treadmill was
higher than the one founded on cyclo-ergometer. There was no difference between RPE and %HRmáx at
LT identified on both ergometers. There was a tendency to lower HR values at LT on cycloergometer
compared to treadmill exercise. These findings showed that RPE and %HR can be used to monitoring and
prescribing training programs to athletes who practice more than one sport.
Keywords: Lactate Threshold; Triathlon, heart hate.
INTRODUÇÃO
A resposta do lactato sangüíneo durante um exercício incremental tem sido muito utilizada na
área esportiva (VAN SCHUYLENBERGH; VANDEN, 2004) como forma de mensuração dos efeitos do
treinamento (FERREIRA et al. 2007; BILLAT et al., 2003), prescrição das intensidades de exercícios
(KINDERMANN et al., 1979) e como forma de estimar o desempenho em diferentes modalidades
esportivas (BENEKE, 1995; BENEKE et al., 2000; BILLAT, 1996; HARNISH et al. 2001).
De acordo com Achten e Jeukendrup (2003) a utilização da frequência cardíaca (FC) para a
prescrição e controle do treinamento pode ser considerada prática e de baixo custo, embora apresente
limitações decorrentes de diversos fatores que podem influenciar sua resposta (temperatura ambiente,
desidratação, redistribuição do fluxo sanguíneo e elevação da temperatura interna). A percepção
subjetiva de esforço (PSE) também pode ser considerada um método capaz de ser utilizado no controle
da intensidade de exercício e passível de ser utilizado no controle do treinamento, desde que os
indivíduos estejam familiarizados com este procedimento (BORG, 1982).
Diversos estudos observaram a manutenção dos valores de FC (PHILP et al., 2008; CARTER et
al., 1999; HURLEY et al., 1984; McMILLAN et al., 2003; ZAPICO et al., 2007) e PSE (HURLEY et al.,
1984) no limiar de lactato antes e após um período de treinamento aeróbico.
Entretanto, poucos estudos investigaram o efeito de diferentes ergômetros nos valores de FC e
PSE identificados em atletas que praticam mais de uma modalidade esportiva.
O objetivo do presente estudo foi comparar os valores de FC e PSE identificadas no limiar de
lactato em dois diferentes ergômetros (esteira rolante e cicloergômetro) em triatletas.
MÉTODOS
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário de Belo
Horizonte (Uni-BH), Protocolo 034/2007, e todos voluntários assinaram um do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido.
Participaram deste estudo 6 atletas do sexo masculino (26,0 ± 7.6 anos, 70,8 ± 5,0kg de massa
corporal, 176 ± 5,0 cm de estatura e 8,3 ± 1,4 % de gordura corporal), com experiência no Triathlon de no
mínimo cinco anos e que possuíam índice para disputar o Troféu Brasil de Triathlon.
Inicialmente foram avaliadas a massa corporal, estatura e o percentual de gordura (JACKSON E
POLLOCK, 1978). Em seguida os atletas foram submetidos a dois protocolos, um em esteira
(Inbrasport®) e outro em cicloergômetro (Monark®) para determinação do LL de forma aleatória. Todos
os testes foram realizados em ambiente controlado (19 a 22ºC; 50 a 60% URA).
O protocolo de esteira consistiu em um exercício progressivo com velocidade inicial de 8km/h e
3% de inclinação, com incrementos de 1,2km/h a cada 3 minutos até a fadiga (adaptado de Heck et al.,
1985). O protocolo em cicloergômetro consistiu em um exercício progressivo com intensidade inicial de
80W, cadência de 80rpm e incrementos de 40W a cada 3 minutos até a fadiga (adaptado de Astrand e
Rodahl, 1987).
Para determinação da lactatemia (Accusport®) amostras de sangue foram coletadas antes do
início do exercício (repouso) e ao final de cada estágio. No protocolo em esteira, o teste era interrompido
por 30s para permitir a colheita sanguínea. As amostras de sangue foram coletadas na popa digital
(aproximadamente 25μL) através de punção com lanceta descartável. O LL foi considerado como
segundo aumento maior ou igual a 0,5 mM em relação a lactatemia do estágio anterior (BALDARI E
GUIDETTI, 2000).
A FC foi monitorada continuamente e registrada a cada minuto através de um
cardiofrequencímetro (Polar®) e percepção subjetiva de esforço (PSE) foi avaliada ao final de cada
estágio através de uma escala de 15 pontos (BORG 1982). O maior valor de FC registrado ao longo de
cada protocolo foi considerada como a frequência cardíaca máxima (FCmáx).
Em todas as situações experimentais os voluntários foram instruídos a se alimentar e ingerir
500mL de água (ACSM, 2000) duas horas antes do início do exercício. Os voluntários foram instruídos a
não ingerir nenhum alimento contendo álcool ou cafeína e nem realizar atividade física vigorosa 24 horas
antes do experimento.
Para análise estatística foi utilizado o teste t de Student pareado para comparar as variáveis
identificadas no LL nos diferentes ergômetros. Para comparar os valores de PSE foi utilizado o teste não
paramétrico de Wilcoxon. Todos os resultados estão apresentados como media ± desvio padrão. O nível
de significância adotado foi de =5%
Resultados
Quando comparados os valores máximos de FC encontrados nos protocolos em esteira e
cicloergômetro, a FC em esteira foi maior (p < 0,05) que aquela encontrada em cicloergômetro (Tabela
1).
Tabela 1: Valores de freqüência cardíaca máxima (FCMAX)
encontrados em cicloergômetro e esteira
Cicloergômetro Esteira
FCMAX 175,2 ± 13,3* 193,7 ± 9,9
*diferença significativa em relação aos valores encontrados em esteira (p < 0,05)
Os resultados de FC, %FC e PSE relativos ao LL identificados em cicloergômetro e esteira
rolante estão expressos na tabela 2:
Tabela 2: Valores de frequência cardíaca (FC), percentual da freqüência cardíaca
máxima (%FCmáx) e percepção subjetiva de esforço (PSE) relativos ao LL identificados
em cicloergômetro e esteira
Ergômetro FC %FCmáx PSE
Cicloergômetro 163 ± 14,3* 93,2 ± 4,2 13,5 ± 2,0
Esteira 180 ± 10,9 94,9 ± 1,4 15 ± 2,8
*Tendência à diferença significativa em relação à esteira (p=0,085)
Não houve diferença entre a PSE e o %FC no LL identificadas em esteira e no cicloergômetro. Já
em valores absolutos, houve uma tendência (p=0,085) a FC no LL em esteira ser maior do que àquela
em cicloergômetro.
DISCUSSÃO
O principal resultado do presente estudo foi de que os valores de % FCmáx e PSE identificadas no
LL não foram diferentes quando analisados em diferentes ergômetros.
A FC no LL apresentou tendência a ser menor no protocolo realizado em cicloergômetro (p =
0,085) do que àquela em esteira, no entanto os voluntários realizaram o exercício no mesmo % FCmáx.
Esse resultado corrobora com o encontrado por Fontana et al. (2009) em que na intensidade do
LL identificado pela máxima fase estável do lactato (MFEL) os valores absolutos de FC foram maiores em
esteira do que em cicloergômetro, porém não foram encontradas diferenças em relação ao %FCmáx.
Uma possível explicação para a tendência à maior FCmáx encontrada na corrida seria a maior
massa muscular envolvida nesse tipo de exercício associada principalmente a estabilização ativa do
tronco (KRAVITZ et al.1997).
O mesmo %FCmáx pode indicar uma semelhante demanda cardiovascular no LL (FONTANA, et
al. 2009) para os exercícios em esteira e cicloergômetro. Embora a FC no limiar tenha sido menor no
cicloergômetro que em esteira, o mesmo ocorreu para a FCmáx , o que pode explicar os %FCmáx
semelhantes nos dois ergômetros.
Não foi observada diferença na PSE nos dois ergômetros no LL. Embora a PSE tenha sido
proposta com base nos valores absolutos de FC (BORG, 1982), os resultados do presente estudo
corroboram Fontana et al. (2009) que observaram a manutenção da PSE para um mesmo %FCmáx apesar
de diferentes valores de FC.
Denadai, Ortiz e Mello (2004) sugerem que identificar e analisar parâmetros associados ao LL
possibilitam aplicações importantes para avaliação e maior especificidade na prescrição de treinamentos.
A partir dos resultados encontrados, a PSE e o %FCmáx mostraram-se ferramentas que podem
ser aplicadas no controle e prescrição do treinamento de indivíduos que praticam mais de uma
modalidade esportiva. Entretanto, para a utilização do %FC em ambas as modalidades avaliadas seria
necessária a aplicação de testes para a medida do LL nos dois ergômetros, já que os valores de FCmáx
encontrados foram diferentes. A PSE também foi uma variável que se mostrou aplicável aos dois
ergômetros na avaliação do LL e independente do ergômetro utilizado podendo ser aplicada na
prescrição e controle do treinamento a partir da realização de apenas um teste máximo.
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1 Laboratório de Fisiologia do Exercício (LAFISE), Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia
Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
2 Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH). Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
Prof. Dr. Emerson Silami Garcia
Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional – Universidade Federal de Minas Gerais
Av. Presidente Carlos Luz, 4664 - Pampulha - CEP 31310-250
Belo Horizonte, MG – Brasil - Telefone: 55 31 34992350 / Tel-Fax: 55 11 34992325 - silami@ufmg.br |